Biografia - Tarsila do Amaral
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Tarsila, descendente de Brás Cubas, nasceu no dia primeiro de setembro de 1886. Viveu os primeiros anos na fazenda São Bento, em Capivarí. Seu pai, sempre muito calado, impunha respeito; sua mãe, sempre mergulhada nos sons de seu piano, se esquecia do mundo. Neste ambiente simples e ao mesmo tempo sofisticado é que Tarsila aprende a ler e a escrever. Não apenas em português, como em francês. Esta mistura da cultura brasileira e européia continuaria a povoar o cotidiano da pintora ao longo de sua vida. |
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No final do ano de 1902, faz a primeira viagem à Europa, com os pais e a irmã, Cecília. Tarsila faz sua primeira pintura, o Coração de Jesus, decalcado durante um ano de intenso e paciente trabalho. Tarsila casa-se no dia 18 de janeiro de 1906, em São Paulo, com o primo de sua mãe, André Teixeira Pinto. Nasce então uma filha, Dulce. Mas o casamento dura pouco. Teixeira Pinto era um homem sério, que não gostava de arte. O casamento seria anulado depois de quase vinte anos, justamente quando Tarsila, já mulher de 38 anos, preparava-se para o casamento com Oswald de Andrade. Com a industrialização e a modernização da cidade de São Paulo, crescia o movimento de imigração e as reivindicações do operariado, que explodiram numa serie de greves em 1917. Tarsila, que continuava a fazer cópias de quadros (entre eles, "A Samaritana") prossegue seus estudos, agora na área de escultura. Inicia no ano de 1917 os estudos de pintura e desenho com o artista Pedro Alexandrino, o que se prolonga por um ano e meio. Pedro orientou Tarsila na construção de seu ateliê, na Rua Vitória, 133, em São Paulo. Neste mesmo ateliê, em 1917, Anita Malfati apresentou suas obras. Na exposição de Anita, considerada “modernista”, estavam quadros que figurariam mais tarde na exposição da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal em São Paulo (entre eles, “O Homem Amarelo” e "A Boba"). Depois de sua exposição, Anita passa a ter aulas com o acadêmico Pedro Alexandrino no ateliê de Tarsila.
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Em junho de 1920, Tarsila parte para Paris com sua filha Dulce. Em Paris, prossegue seu aprendizado na Academia Julian, onde seus trabalhos são considerados avançados. Adotava as cores pálidas, com predominância de azuis, e os retratos suaves e líricos como em “Chapéu Azul”, de 1922, com figura feminina criada a partir da imagem da mãe, de quem sente saudades. Ao chegar de Paris, volta à ativa no ateliê da Rua Vitória. Tarsila pinta os famosos retratos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, em 1922. |
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De volta a Paris, Tarsila inicia as atividades no seu ateliê no número 9 da rue Hegseppe Moreau, perto do Place Clichy. Tarsila visita o ateliê de Pablo Picasso. Fica emocionada. Através dele compreende que o Cubismo “é arte cerebral que requer educação sentimental”. A pintura de Tarsila passa, então, por transformações. Perde o caráter difuso e ganha nitidez, em traços mais finos e contornos mais definidos. É bem visível a diferença entre retratos anteriores, mais leves e difusos, de tendência impressionista, e os que agora cria, como seu auto retrato, de 1923. Este ano fica marcado também pelo aparecimento de “A Negra”, em quadro a óleo de Tarsila, uma primeira manifestação da Antropofagia, movimento que iria acontecer mesmo a partir de 1928. A arte brasileiríssima se evidencia no modo de elaborar esta pintura: a negra, de lábios grossos, olhos amendoados e seios enormes. A figura agigantada estará também presente em quadros posteriores, como “Abapuru” e “Antropofagia”. Como fundo, as faixas geométricas. E a brasileiríssima folha de bananeira, cortada parte de quadro, em diagonal. Em outros quadros, capricha na composição geométrica e na técnica lisa, na linha de Léger: “La Tasse” é um exemplo. |
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Tarsila faz muitos desenhos e alguns esboços que usará para compor futuros quadros. Desta forma, nasceu a pintura “Morro da Favela” de Tarsila, com a pobreza das casas amontoadas, algumas retas, outras curvadas, tentando não desabar, e as pessoas símples em cenário que inclui roupas penduradas em árvores e bichos. Mas a favela aparece em visão festiva, leve, e a fase negativa da miséria não é suficientemente problematizada a ponto de se construir como marca de um drama social que exige mudanças dramáticas, como acontecerá na década seguinte. |
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Tarsila volta a Paris, onde acontece a primeira exposição individual no dia 7 de junho de 1926, na Galerie Percier. As dezessete telas expostas são da fase pau-brasil, com exceção "A Negra", anterior, 1923. Em alguns quadros, molduras criativas de Pierre Legrain, na linha art-deco, feitas com materiais diversos. A exposição foi muito elogiada pela crítica. Quando Tarsila pintou um quadro que ofereceu de presente de aniversário para seu marido, Oswald de Andrade, em 11 de janeiro de 1928, talvez não imaginasse que estaria surgindo ali um movimento que se chamaria “Antropofagia”. O quadro exibia uma figura estranha, agitada como “A Negra”, mas com um contraste mais acentuado entre os pés e mãos enormes, e a cabecinha minúscula, no alto. Em “A Negra”, o verde da folha de bananeira contrastava com faixas geométricas ao fundo. Tarsila deu o nome ao quadro de “Abapuru” (o homem que come carne humana, o antropófago). Estava fundada a Antropofagia. Os anos de 1928 e 1929 registram exposições importantes. Em junho de 1928 acontece a segunda exposição individual de Tarsila em Paris, na Galerie Percier. Finalmente depois de tantos projetos não executados e de tanta expectativa, acontece primeira exposição individual de Tarsila no Brasil, em junho de 1929, no Palace Hotel do Rio de Janeiro. Expõe 35 telas que encontram um ambiente artístico já mais maduro e desenvolvido. Mas a extravagante pintura de Tarsila provoca outras e diferentes reações. Alguns não conseguem entender nada daquilo. Tarsila, tranqüila, mostra-se contente com a sua arte. |
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Em setembro acontece a exposição individual de Tarsila em São Paulo, no Edifício Glória, à rua Barão de Itapetininga. A exposição provoca também reações calorosas. Os estudantes da Escola Belas- Artes, indignados, ameaçam rasgar as telas de Tarsila. Os anos 30 se mostram tempos difíceis para Tarsila. Ela inicia um novo trabalho, como funcionária pública da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Começa o árduo trabalho de elaborar o catálogo do acervo da Pinacoteca, que até então não existia. |
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Affonso Taunay, diretor do Museu Paulistano, é um dos que cumprimentam pelo trabalho a ela confiado. Com a revolução de 30, Tarsila acaba perdendo o emprego, que lhe fora dado por Julio Prestes, governador do Estado. Os tempos mudaram. E o novo ciclo de Tarsila tem outro interesse: a preocupação social.Tem como novo companheiro um cientista e participante político.Tem como novo roteiro de viagem a Rússia. E tem um novo temário para seus quadros: a miséria e a condição proletária. Com o novo companheiro Osório César, Tarsila parte para a Europa. Seguem para Rússia em julho de 1931. Tarsila faz exposição no Museu de Artes Ocidentais em Moscou, e é saudada por Serge Romoff, amigo de Paris. Faz conferências sobre “a arte no Brasil”. Na Rússia, Tarsila trabalhou como operária de construção, pintora de paredes e portas, com horário fixo nos arredores da cidade. Com esses trabalhos ganha muito dinheiro para voltar ao Brasil e ficar algum tempo mais folgada. Em dezembro de 1931 chega ao Brasil. Em 1933, Tarsila pinta quadros de denso motivo social: “Operários” e “Segunda Classe”. Essa produção teve antecedentes: “A Família”, de 1925, mostra um grupo numeroso de figuras pobres. Adultos e crianças espalham-se no plano, com os rostos cilíndricos, e os narizes largos. Em “Operários”, as 53 cabeças, justapostas, exibem a massa humana prolataria do mundo industrial. Trata-se de um marco histórico na obra de Tarsila. Os rostos surrealistas levitam suspensos, tal como o próprio rosto da artista no seu famoso "Auto-Retrato". O tema repete-se em “Segunda Classe”, onde também predominam as cores sombrias. Retrato de um Brasil socialmente miserável, cujo aspecto triste e trágico, antes recalcado, emerge com muita força desse década de 30. Ainda em 1933, Tarsila vai com Osório Cezar a Montevidéu, onde faz conferências. E acontece nesse mesmo ano outro marco histórico da arte de Tarsila: realiza-se a primeira exposição retrospectiva de seus trabalhos, em outubro, no Palace Hotel. É o período que Tarsila passa a escrever com assiduidade. Publica o primeiro artigo em jornal do Rio, "O Globo". Uma terceira relação amorosa marca os meados dos anos 30: Tarsila une-se a Luís Martins, com quem permaneceu até meados de 1950. Passa a viver no Rio de Janeiro, em 1935, com esse jovem poeta. Em 1938, passa a morar em São Paulo. |
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Dos anos 40 aos 70, Tarsila volta a expor na sua pintura aspectos de fases anteriores. Os quadros dos anos 40 apresentam novidades significativas. As obras desse período ostentam figuras enormes, que lembram as antropofagias. Nos anos 50, ocorre uma exposição retrospectiva no Museu da Arte Moderna de São Paulo, organizada por Sérgio Miller. É a segunda exposição retrospectiva da pintora, esta de dezembro de 1950, dezessete anos depois da primeira de 1933. |
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Em 1951, ocorre a primeira Bienal de São Paulo, patrocinada pelo Museu de Arte Moderna, fundada em 1948 por um grupo de intelectuais. Em 1952 ocorre a exposição comemorativa dos 30 anos da Semana de Arte Moderna. A exposição inclui telas de Tarsila. Em 1954, Tarsila pinta o painel “Procissão do Santíssimo”, a convite do governo do Estado de São Paulo, para as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo, destinado ao Pavilhão de História, construído no Parque do Ibirapuera. Data também desta época a sua separação de Luis Martins, depois de duradoura ligação. Os anos 60 marcam o agradável reconhecimento público de sua obra, principalmente a partir de 1961, com a exposição retrospectiva na Casa do Artista Plástico. As obras começam a ser disputadas a um bom preço. Em 1969, a consagração maior: a retrospectiva no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo: "Tarsila 1918-1968". Mas as dificuldades que ela teve de enfrentar nesta época foram muitas: perdera a única neta, Beatriz. Em sua homenagem, resolve esculpir um anjo para o seu túmulo em Petrópolis. Devido a uma cirurgia na coluna, fica paralítica e usa cadeiras de rodas. E perde a filha única, Dulce, em março de 1966. |
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Em 1971, aparece em entrevista, na cadeira de rodas, com lenço na cabeça e óculos. E diz ao repórter que ela era uma “criatura tranqüila e simples”. Em 1971 houve uma festa em homenagem a Tarsila, em agosto, na tradicional Mansão França, na avenida Angélica, em São Paulo. Nesse mesmo ano de 1971, apesar das dificuldades em seu passado recente, Tarsila afirma adorar a vida: “Sou fã dela, vou com ela até os 100”. Não foi. Ficaram quadros inacabados: paisagens com árvores, montanhas e casinhas simples. A adorada vida de Tarsila acaba Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, no dia 17 de janeiro de 1973. Ela foi enterrada no Cemitério da Consolação. De vestido branco, conforme era seu desejo. |
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Tarsila do Amaral 1886 - 1973 Homenagem de uma fã |
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